Exposição virtual

Duas Margens

Saberes e Memórias na beira da Represa Billings e Guarapiranga

Um percurso histórico e sensível por dois territórios da zona sul de São Paulo, conectados pelas águas e atravessados por memórias, cuidado, pertencimento e luta cotidiana.

Bauhinia eco-social

Uma iniciativa que cuida das pessoas para cuidar do planeta

A exposição nasce do encontro entre juventudes, anciãos, comunidades periféricas, áreas de mananciais e memórias vivas do extremo sul de São Paulo.

1. Entre Margens

Dois territórios, muitas formas de viver as águas

Chácara Santo Amaro

Embora vizinhos e integrantes da zona sul de São Paulo, a Chácara Santo Amaro e o Jardim Iporanga carregam identidades, histórias e desafios distintos. De um lado, a Chácara Santo Amaro ainda preserva características rurais às margens da Represa Billings.

Jardim Iporanga

Do outro lado, o Jardim Iporanga apresenta a complexidade urbana de um território banhado pela Represa Guarapiranga, marcado por transformações profundas na paisagem, no acesso à infraestrutura e na relação com os cursos d’água.

Entre memórias e paisagens, esta exposição nasce do encontro entre gerações. A partir da escuta atenta da juventude junto àqueles que carinhosamente chamamos de anciãos, foram reunidas 30 histórias que atravessam o tempo e revelam saberes, afetos e modos de vida cultivados nas áreas de mananciais da zona sul.

Cada relato é um fragmento de memória que conecta pessoas, águas e territórios. Às margens das represas e em meio à biodiversidade que resiste, moradores e moradoras compartilham experiências de cuidado, pertencimento e luta cotidiana na busca de qualidade de vida diante da ausência do poder público.

Mapa interativo dos mananciais

Desenvolvimento do território nos últimos 50 anos

O mapa usa base real do OpenStreetMap e organiza uma leitura temporal do território a partir de fontes públicas: MapBiomas para cobertura e uso da terra, GeoSampa para camadas oficiais do município e referências locais da exposição.

1985 — início da série anual MapBiomas para cobertura e uso da terra no Brasil.

Uso e coberturaMapBiomas Collection 10/10.1
30 mresolução da série MapBiomas
1985–2024período com dados anuais reais
Territórios Represas Mananciais Leitura temporal

Observação técnica: a série oficial do MapBiomas começa em 1985. O ponto de 1975 aparece como marco de memória oral da exposição e não como raster MapBiomas.

2. O Passado

Quando contar as casas ainda era tarefa simples

Billings • ruralidade

Chácara Santo Amaro

Foto de Chácara Santo Amaro
Chácara Santo Amaro

No início, contar as casas era tarefa simples. Quem chegava ao território buscava uma vida mais tranquila, o ar puro e a proximidade com a natureza que a cidade já não oferecia. O isolamento, porém, impunha desafios concretos: sem energia elétrica, pavimentação ou transporte público, a comunidade precisou construir soluções coletivas para garantir condições básicas de vida.

“Quando eu cheguei aqui era bem pouca gente, não tinha morador nenhum... era só mato mesmo, não tinha contato nenhum com nada. Antigamente, a represa era mais cheia e tinha mais movimento, atraía muitos pescadores.” — Sra. Davina da Silva Leme Soares, 75 anos, moradora do bairro há 35 anos.

A história da Chácara Santo Amaro e de seu entorno é marcada pela organização comunitária. Ao longo das décadas, a conquista de direitos, serviços e equipamentos públicos resultou da mobilização de moradores e moradoras que transformaram demandas coletivas em ação.

“A escola foi nós que construímos, nossos pais. Nossos pais construíram um pedaço do terreno pra nós, o pessoal ajudou doando material.” — Sr. Antônio Petrino, residente desde 1971.
“Quando nós chegamos na prefeitura, chamou nós de gato pingado. [...] E a gente veio lutando, né?” — Sr. Antônio Petrino.

Os relatos evidenciam como viver em áreas de mananciais é atravessado por desafios urbanos, ambientais e sociais. Mais do que registros individuais, essas memórias revelam processos coletivos de ocupação, permanência e reivindicação, fundamentais para compreender a resistência dos territórios da zona sul de São Paulo.

Guarapiranga • urbanização

Jardim Iporanga

Foto de Jardim Iporanga
Jardim Iporanga

Antes da urbanização, o Jardim Iporanga era marcado pelas árvores e por uma ocupação ainda dispersa. Em meados da década de 1960, poucas famílias habitavam a região. O isolamento geográfico da época impunha desafios: sem infraestrutura básica, as ruas eram caminhos de terra vermelha, e o acesso à água, à energia elétrica e ao transporte dependia de soluções construídas pelos próprios moradores.

“Não tinha casa nenhuma quase... Não tinha água, nem luz, nem asfalto... Nada, nada, nada. Para ter água, tinha que tirar do poço com o balde, ou lavar a roupa lá embaixo, onde nascia uma água limpa, porque não tinha favela, era só mato.” — Sra. Maria Silveira, 83 anos.

Nas décadas de 1970 e 1980, o crescimento populacional e a chegada gradual dos serviços públicos transformaram profundamente a paisagem local. A instalação da rede de abastecimento e a pavimentação das ruas vieram acompanhadas pela redução das áreas verdes e pela degradação dos cursos d’água.

Essa transformação também alterou a percepção do clima. Onde antes o inverno cobria os gramados de geada, hoje os moradores observam a irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas.

Mais do que registrar um processo de urbanização, estas memórias revelam transformações socioambientais vividas por quem habita áreas de mananciais. A lembrança da Sra. Maria Silveira — “era só mato” — ajuda a compreender como a expansão urbana modificou a relação entre pessoas, território e natureza.

3. O Presente

Avanços, contradições e permanências

Chácara Santo Amaro

Natureza, comércio e novos desafios

Foto de Chácara Santo Amaro
Chácara Santo Amaro

Apesar das transformações urbanas das últimas décadas, a Chácara Santo Amaro ainda preserva características de um modo de vida rural. O contato com a natureza segue presente no cotidiano dos moradores, que mantêm práticas como o cultivo de hortas e pomares, a utilização de poços para o abastecimento doméstico e o uso da represa para pesca e lazer.

A ampliação do comércio local, a melhoria do transporte e a chegada de novos serviços reduziram o isolamento histórico do território e trouxeram novas facilidades para a comunidade. No entanto, essas mudanças convivem com saberes e práticas que mantêm viva a relação com a terra, as águas e os ciclos naturais.

Como relata a Sra. Maria Aparecida, conhecida como Dona Cida, a expansão do comércio transformou a rotina dos moradores, facilitando o acesso a bens e serviços essenciais sem a necessidade de longos deslocamentos.

Ao mesmo tempo, o crescimento populacional trouxe novos desafios. A ampliação dos serviços públicos não acompanhou o ritmo da ocupação do território, especialmente no acesso à saúde e em estradas que não comportam o fluxo atual.

“Depois de uns dois, três anos para cá... começaram a melhorar muito essa avenida. Mas acontece que agora fica ruim pelo seguinte, porque tem muito movimento e é muita poeira, muito pó. Então o asfalto eu acho que seria uma coisa ideal.” — Dona Glória, 54 anos, moradora há 30 anos.
Jardim Iporanga

Infraestrutura, perda de águas limpas e calor

Foto de Jardim Iporanga
Jardim Iporanga

O Jardim Iporanga vivenciou uma profunda transformação de sua paisagem. Onde antes predominavam áreas verdes, nascentes e cursos d’água limpos, hoje o território convive com a urbanização intensiva, a impermeabilização do solo e os impactos ambientais decorrentes do crescimento populacional com ausência de educação ambiental.

“Não tinha asfalto, era terra pura aqui, terra vermelha.” — Sra. Maria Isabel Gama.
“Era tudo mato, eram casas pingadas. Não tinha muita gente morando lá... onde tem as Casas Bahia e tal, aquilo ali era um aterrado.” — Sra. Maria Isabel Gama.

A chegada da infraestrutura básica representou uma conquista histórica. O acesso ao asfalto, à água encanada, à rede de esgoto, à energia elétrica e à ampliação do comércio modificou a relação dos moradores com o território. Dona Salia destaca ainda o impacto da instalação da Universidade Santo Amaro (UNISA), que ampliou oportunidades educacionais na região.

No entanto, a universalização desses direitos ainda enfrenta limites. As Unidades Básicas de Saúde aproximaram o atendimento da população, mas a alta demanda resulta em filas, demora para exames e dificuldades no acesso a tratamentos especializados.

“O riozinho aqui embaixo era limpo, a gente pegava água... tinha um monte de peixinho nadando.” — Sra. Odete Moura.

A Sra. Maria Cecília, conhecida como Dona Salia, também recorda um tempo em que minas e bicas abasteciam moradores com água limpa. Ambas observam que a redução das áreas verdes alterou a paisagem, degradou os mananciais e intensificou a sensação de calor no bairro.

Vídeos do presente

Relatos e paisagens em movimento

Chácara Santo Amaro: cotidiano e território

Chácara Santo Amaro: práticas e memórias

Dona Maria Aparecida, vó da Maria Carolina

4. O Futuro

Futuros possíveis para os territórios de mananciais

Chácara Santo Amaro

Bem-viver, biodiversidade e saberes locais

Foto de Chácara Santo Amaro
Chácara Santo Amaro

O futuro da Chácara Santo Amaro é narrado pelo olhar de quem cresce em um território onde a vida cotidiana ainda é marcada pela proximidade com a natureza. Em meio às transformações urbanas da zona sul, a comunidade preserva práticas e saberes que mantêm viva a relação com os mananciais e com o modo de vida rural.

Os registros audiovisuais produzidos pelo jovem Marcos apresentam a Chácara Santo Amaro a partir de sua própria experiência. Seus vídeos percorrem paisagens, memórias e atividades que fazem parte da rotina local: o cultivo da terra, o uso de poços para o abastecimento doméstico, a pesca, os momentos de lazer às margens da represa e a convivência diária com a biodiversidade.

O futuro do bem-viver da Chácara Santo Amaro depende não apenas da ampliação da infraestrutura e dos serviços públicos, mas também da valorização dos conhecimentos locais que preservam a região.

Jardim Iporanga

Cartografias da juventude

Foto de Jardim Iporanga
Jardim Iporanga

No Jardim Iporanga, o futuro é cartografado pelas novas gerações. A partir de um mapeamento participativo realizado por 50 jovens moradores da região urbana, esta seção apresenta percepções, memórias e projeções sobre o território.

Os mapas produzidos coletivamente identificam espaços de convivência, áreas de preservação, equipamentos públicos, percursos cotidianos e locais que demandam melhorias, revelando como a juventude percebe os desafios e as potencialidades do bairro.

Em diálogo com o conselho de anciões, as cartografias contemporâneas se conectam às memórias de quem acompanhou as transformações da paisagem e participou das lutas pelo acesso à infraestrutura, à moradia, ao saneamento e à saúde.

Vídeos do futuro

Olhares da juventude

Palmito Jussara

Registro audiovisual da Chácara Santo Amaro.

Rastros de animais

Registro audiovisual da biodiversidade no território.

Faça parte

Envie uma memória do futuro

Compartilhe seu nome, contato, território e uma memória, desejo ou percepção sobre o futuro das águas, das ruas, das matas e das pessoas da zona sul.

Mensagem final

Vozes para continuar lutando

“Eu sonho para o futuro do bairro... que o povo tenha condução, né? Tudo direitinho e que não desmanche a natureza... Se a gente plantar coisas boas, a gente vai no futuro ter coisas boas pros nossos filhos, pros nossos netos.” — Dona Maria Aparecida (Cida)
“Que a gente não deva desistir. Que a gente tem que lutar com a força que temos e não deve se entregar às dificuldades. Lutar e lutar e cada vez mais lutar.” — Sr. João Tiburcio Pontes

Dona Davina, vó do Marcos

Severino Galdino