Território do Futuro: juventude da quebrada se mobiliza para defesa da vida e do território

Território do Futuro: juventude da quebrada se mobiliza para defesa da vida e do território.

No extremo sul de São Paulo, onde resiste a área rural, áreas verdes e suas periferias, também guardam nascentes que abastecem milhões de pessoas. E (r)existe uma juventude que se recusa a ser invisível. O Território do Futuro, Saberes da Quebrada é uma rede de jovens, que nasce da força de um grupo de moradores da zona sul, que vivem entre a realidade rural e urbana, e juntos constroem respostas coletivas para enfrentar os impactos causados pelas mudanças climáticas, por meio da valorização do conhecimento de quem sempre viveu ali. Maria Carolina Serrao, ativista jovem e uma das gestoras do projeto, define bem que é preciso de um resgate histórico para colocar soluções práticas: “Conhecer o passado é essencial para restaurar o futuro sem cometer os mesmos erros.”

Maria entrevistando uns dos comerciantes mais antigos do Jardim Iporanga, bairro da região da Cidade Dutra ao lado da represa Guarapiranga. Crédito: Anita Costa

A juventude, ao longo de sua história de luta, destaca-se como agente transformador de suas comunidades. Em um contexto marcado pelo aumento da temperatura global e por eventos extremos que geram catástrofes ambientais, sua mobilização por consciência ambiental torna-se valiosa. Jovens querem ocupar espaços, com voz ativa e fazer parte da tomada de decisão, exercendo plenamente sua cidadania e defendendo o direito coletivo de viver com justiça ambiental. 

Larissa Viana, uma das jovens idealizadoras da iniciativa, compartilha: “Somos a geração que assumirá, nos próximos anos, o compromisso de cuidar da nossa casa comum, o planeta Terra. Não se trata apenas de falar sobre o futuro, trata-se de garantir condições dignas de existência no presente”.

Essa responsabilidade também nasce do vínculo profundo com o território, como reforça Marcos Camargo, representante do projeto na área rural, ao afirmar: “Aqui na região conhecida como Parelheiros, você pode perceber que em cada moradia, em cada terreno ou família existe uma história brilhante e um aprendizado para a vida inteira.”

Larissa e Marcos entrevistando a dona Davina e o Sr Airton, avós do Marcos e moradores do bairro Chácara Santo Amaro a mais de 40 anos. Crédito: Gabriela Garcia

Mobilização comunitária: a mudança começa no território

No extremo sul, os impactos da crise climática não são abstratos nem distantes, eles atravessam o cotidiano da população. São enchentes que invadem casas e causam fatalidades nas ruas, deslizamentos em áreas de moradia, ondas de calor cada vez mais intensas, perdas na produção agrícola e o agravamento da insegurança alimentar. Também se manifestam em dias seguidos sem energia elétrica após temporais, resultado de uma gestão que não se preparou adequadamente para eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas.

Diante desse cenário, a mobilização comunitária torna-se indispensável. É por meio dela que os problemas concretos do território são identificados e que soluções coerentes com a realidade local são construídas. Em rede, moradores e organizações compartilham experiências, fortalecem iniciativas e pressionam por políticas públicas mais responsáveis e preparadas para os desafios climáticos. A transformação nasce do engajamento coletivo. Afinal, como diz Frei Tito, a cabeça pensa onde os pés pisam.

Tornar o clima um tema acessível

Embora as mudanças climáticas estejam cada vez mais presentes no debate público, o tema ainda não alcança todas as realidades. Muitas vezes, a discussão permanece restrita a determinados espaços (acadêmicos, institucionais ou militantes), enquanto parte da população segue distante dessa conversa. A própria juventude reconhece que o debate costuma acontecer em “bolhas”, onde algumas pessoas falam constantemente sobre o assunto, mas muitas outras quase não têm acesso a informações claras, contextualizadas e conectadas ao seu cotidiano.

Diante disso, democratizar a informação se torna parte fundamental da estratégia de transformação. Não basta discutir a crise climática, é preciso traduzir o tema para a realidade do território, utilizar linguagem simples, promover conversas nas escolas, nas associações, nas feiras, nas rodas culturais, e transformar debate em prática concreta.

“Acredito que a melhor forma de deixar ser um tema acessível é passar adiante com palavras de fácil entendimento, conversar sobre isso, fazer projetos que falam sobre isso. Em toda oportunidade precisamos falar sobre e fazer algo sobre!” – Maria Carolina Serrao

Colocando o ser humano dentro do sistema socioecológico

O Território do Futuro se constrói a partir do estudo participativo, da escuta ativa e da articulação em rede. A proposta é reunir juventude periférica e rural para analisar a realidade do território, levantar problemas concretos e elaborar, de forma coletiva, propostas de políticas públicas socioambientais. Questionar é parte central desse processo, questionar decisões, prioridades e também as narrativas que tentam simplificar problemas complexos. Nesse sentido, a juventude provoca reflexões importantes sobre a forma como as tragédias ambientais são tratadas, muita gente ainda costuma dizer ‘desastres naturais’, mas importante ressaltar que se a causa advém da intervenção humana, não pode ser ‘natural’

Ao nomear as causas estruturais como a desigualdade, o racismo ambiental e a ausência ou fragilidade de políticas públicas, o debate deixa de tratar eventos extremos como inevitáveis e passa a reconhecer responsabilidades. Esse é um princípio fundamental da justiça climática, uma das áreas de atuação da Bauhinia eco-social. A defesa do território também passa pela preservação ambiental e pela mudança na relação entre cidade e natureza.

“Preservar é nossa única saída, a Terra chegou em seu limite. Precisamos mudar nossa dinâmica com a natureza ou nossa própria existência estará em cheque. É preciso tornar as comunidades mais verdes e andar junto com a natureza, não contra.” – Larissa Viana.

Conservar o Território é proteger Direitos

Conservar a Mata Atlântica, nascentes, fortalecer a agroecologia e repensar o modelo de urbanização não são apenas pautas ambientais: são medidas que impactam diretamente a qualidade de vida nas periferias e influenciam o equilíbrio socioambiental da cidade como um todo. E há jovens que vivem na área rural, no extremo sul da capital, que afirmam que morar em meio à natureza deveria ser um direito de todas as pessoas . Ali, a relação com a terra não é apenas produtiva, mas afetiva e espiritual.

 “Minha motivação vem da paz que a agricultura nos fornece, pra mim lidar com a terra é a mesma coisa de lidar com um bebê de colo… tem que ter cuidado, tem que ficar de olho, é satisfatório, é como se fosse terapia.” – Marcos Camargo.

O Território do Futuro, Saberes da Quebrada une todas essas vontades de mudança e valorização dos territórios e a sua natureza, é um movimento pensado por jovens que reafirma que defender o clima é também defender a memória, a cultura e as histórias que moldam cada pedaço da zona sul. Cuidar da terra é cuidar das pessoas.

Texto escrito por: Larissa Viana, Maria Serrao, Marcos Camargo e Anita Costa.

Revisão e edição: Fernanda Banzatto.

Equipe Projeto: Larissa Viana, Maria Serrao, Marcos Camargo, Anita Costa, Elisangela Martins e Gabriela Garcia.

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Respostas de 3

  1. Parabens, o futuro é no território garantindo conhecimento em relação ao ambiente de produção de agua, alimento e bem-estar. Maior conhecimento, maior valorização, reconhecimento frente ao conjunto da sociedade. O trabalho em rede com experiencias similares gera intercambio fortalecimento e segurança,no final isto permite enfrentar eventos extremos sociais e naturais com mas resiliência.

  2. Muito muito feliz de ver este projeto chegando a lugares que geralmente são esquecidos! Mais feliz ainda em ver jovens como a Carol e a Larissa fazendo parte desse projeto lindo cheio de esperança e sabedoria, mostrando que ainda permanecemos aqui,em grande número e grande luta para sermos vistos!

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